São dez horas, a hora em que nasci .No mês das uvas . E assim cresci . Os primeiros anos , na Heliodoro Salgado , um jornalista do Porto , anarquista de todas as revoluções perdidas e que Salazar se esquecera de proibir o seu nome a uma travessa , ligando a Conde Carvalhal à Rua Nova da Alegria , na capital da colónia branca , a " fermosa ilha da Madeira " !
Tenho algumas recordações desse tempo abençoado - caí de uma escada de pedra e só parei no fundo do jardim e ainda hoje carrego a prova dos factos ao alto da testa aflorando o cabelo que começara por ser castanho e agora se confunde com a pura neve que encontrei nos povos amigos do Norte da Europa...A morte da tia Maria que me guiava pela mão e enganava o diagnóstico do médico que nunca chegou a duvidar da minha miopia . O inseparável Bobby , branco e negro , como se fosse o filho dos dois que apareciam no rótulo das garrafas de uísque blackandwhite...
José acompanhava a minha recordação em silêncio , descíamos a Calçada do Pico , vindos de uma visita a Aragão , o sobrevivente de uma longa espera às portas da memória , apoiado no braço amigo de Estela , a mulher . Era muito próximo dos dois .
Conheci primeiro o poeta , o escritor e o pintor no fim de uma sessão do Cine-Forum no Teatro Municipal . A ditadura caminhava para o seu esperado fim . Quando parti para o meu exílio finlandês começava a descobrir o historiador . No meu acidental regresso à ilha , na flor da revolução , trabalhámos num projecto de cultura popular , recuperando canções e romanceiros
perdidos , os mesmos que animaram o Conde Dom Henrique na sua longa viagem do centro para o noroeste da Europa... e ajudaram os companheiros de Zarco a aproximar uma ilha perdida no Atlântico , conhecida de piratas e náufragos ...
Estela , recordo-me da sua angústia na casa da Lapa em busca de um médico salvador para controlar a derrapagem do cérebro inigualável de Aragão , uma rede de emoções , cores e odores , factos e lugares que o ajudavam a celebrar , através da arte , a esperança da coroação do homem na marcha acelerada do conhecimento...
Quando recebi a notícia , encontrava-me no Palácio das Necessidades , mergulhado nalgum documento que me ajudava a compreender melhor a próxima viagem e compreendi que era preciso agir depressa para dominar o perigo que pairava nas palavras da incerteza ...
O perigo maior é quebrar o silêncio . Apercebi-me desta verdade ainda muito jovem .Todos os anos , no Liceu do Funchal , havia um concurso literário aberto aos estudantes . O prémio era de 150 escudos . Dava para ir ao cinema trinta vezes , ir à bola dez vezes , comer 150 gelados , comprar 15 romances de Eça ... Quando estava no 1º ano foi-me atribuído o prémio . O "Diário " publicou o conto . Meu pai chamou-me escritor .
No ano seguinte , apresentei-me a concurso com " Labirinto " . E ganhei . Mas não cheguei a receber o prémio . Começara a guerra colonial e o país entrara num inextricável labirinto . Uma vez o graduado da Mocidade Portuguesa chamou-me comunista . Usou o mesmo tom de quando me chamava "caixadóculos " .
Um colega de escola levou-me à Estação Rádio da Madeira , no Pico dos Barcelos . A rádio fascinou-me . Um programa de rádio era o meu sonho . Quando criei o "Antes e Depois ", exclusivamente de música anglo-americana , o censor fascista exigiu a tradução das canções dos Beatles - perguntei-lhe se a PIDE não tinha tradutor de inglês ... Fui proibido de entrar na estação ...
José decide-se por organizar o silêncio , compreendê-lo , purificá-lo . Talvez a Poesia , a Música...
Por alturas do Convento de Santa Clara , ofereceu-me um livro que acabara de publicar - " Aventura na casa dos livros " com uma dedicatória recordando o nosso trajecto literário " onde juntos percorremos os corredores ilhéus da memória "... Ah , sim... Era por aqui que minha mãe me recomendava silêncio - " ali dentro está o corpo de Zarco " , depois seguíamos por uma rua escura que desmbocava na Cruz Vermelha , no largo da confluência com a 5 de Outubro que dava para uma ponte às portas da Casa Hinton & Sons e eu soltava um suspiro de alívio pois deixara para trás uma curva mal iluminada por umas lamparinas baças guardadas por uma vidraça suja " em honra das almas "... O Natal de 2000 caminhava para o fim e eu preparava-me para regressar a África . Nunca mais nos encontrámos .
A 21 de Março , Dia da Poesia , bati às portas da Morte mas não fui recebido . Um avião-hospital levou-me para Joanesburgo e regressei ao mundo dos vivos , que falam de silêncio como se fosse música - " a pedra de cantaria despida pelo pudor das marteladas do tempo , apontava um calendário , incomum , desfolhado , onde se regista o amor no orvalho das madrugadas " .
Folheámos juntos um livro de Farllenghetti que iludira os fiscais das Letras , juntos escrevemos na Página 2000 do JM , acreditámos na esperança do "Movimento" imaginado por Vieira de Freitas , tal como Cadernos da Ilha , de que José foi um continuador interessado desde a primeira reunião , em 1976 , numa sala do Teatro Municipal de Baltazar Dias .
No meu regresso do exílio , o entusiasmo da Revolução levara-nos à Rua da Carreira - José entrou pela porta do CDS e eu pela do PCP ...Vieira de Freitas vai propor-me em 1979 para militante socialista depois da invasão soviética do Afeganistão me ter afastado definitivamente do Partido Comunista... No Hospital dos Capuchos fiz a última visita a Vieira de Freitas . Já não me reconhecia , poucos dias depois de uma conversa de quatro horas num café da Trindade . José e Vieira de Freitas eram da mesma família e traziam na alma a música da Poesia .
Lisboa, Janeiro de 2008 .